Monique Prada – (51) 9944-3822

Acompanhante de alto nível para encontros discretos em Porto Alegre – RS

O direito de existir (eu, como você)

por Monique Prada

Artigo publicado originalmente no blog Socialista Morena, da jornalista Cynara Menezes
Leia este artigo também no Papo de Homem

O senso comum trata a prostituição como a mais antiga das atividades remuneradas. Embora eu não estivesse lá para testemunhar, meus parcos conhecimentos da história da humanidade não me dão base sólida para contestar tal informação – de modo que a tomaremos como verdade, de momento. Fato é que a prostituição existe desde há muito e, por mais estigmatizada, discriminada, isolada que seja a pessoa que a exerce, segue existindo, sem dar sinais reais de que sua extinção esteja próxima.

Assunto em voga hoje em dia, o projeto de lei que visa regulamentar a atividade vem encontrando apoio e oposição em vários setores da sociedade organizada. É um projeto bastante inteligente, conectado à realidade. Um dos pontos mais importantes em seu texto é a legalização das boates, clínicas e casas de prostituição, estipulando inclusive valores percentuais para determinar o que se pode considerar “exploração” – a qual passa a ser o crime – e o que seria lucro aceitável a uma empresa destinada à diversão adulta e à comercialização de serviços sexuais. Seus maiores opositores, além dos tradicionais grupos religiosos de matizes variados, devem estar justamente nos donos dos bordéis e afins. Situação análoga a de qualquer tentativa de regulação do trabalho em qualquer época em nosso país, vide o ocorrido na década de ’40.

Incrivelmente, algumas pessoas reagem como se o projeto “criasse uma nova profissão”, e não simplesmente regulamentasse o que já temos por aí, funcionando dia e noite à revelia da lei – o que pode, em muitos casos, dar margem inclusive a outras ilegalidades e a uma situação de vulnerabilidade real e segregação ao profissional, que não tem a quem recorrer na hora de fazer valer seus direitos. O projeto praticamente não afeta em nada a vida das chamadas “acompanhantes de luxo” (luxo, aliás, é um termo até irônico quando aplicado ao ramo…) que atuam de modo independente através de sites e comunidades na Internet, ou mesmo em casas mais conceituadas, que não costumam perceber remuneração direta sobre o valor cobrado pela profissional. Entretanto, é de grande importância para proteger as prostitutas em situação de maior vulnerabilidade social. Não regulamentar não acabará com os prostíbulos baratos e insalubres. A não regulamentação apenas favorece o trabalho da máfias, o tráfico humano, a escravidão (e lembremos que trabalho escravo não é acontecimento inerente apenas à prostituição: há mão-de-obra escrava farta na indústria da construção civil, do vestuário, da mineração.. E a situação do trabalhador doméstico nos pontos mais longínquos do país, como anda?).

Os efeitos positivos da regulamentação talvez não sejam visíveis a curto prazo, não cabe ilusão a esse respeito. O projeto de lei não é perfeito, tem suas falhas – coisa que não ficou clara para mim, por exemplo, é como se daria a cobrança pelo serviço em caso de não pagamento pelo cliente: haveria um contrato escrito entre as partes? E do que consistiria o trabalho “em cooperativa” proposto? O texto precisa ser melhor estudado, aperfeiçoado, ajustado à diversidade de situações regionais. Mas é um puta avanço – com o perdão do trocadilho, babaca e quase inevitável.

Campanha irlandesa contra a segregação às prostitutas: “Escolho o emprego que melhor se adequa às minhas necessidades”.

Lembremos sempre: todos nós, quando “decidimos” trabalhar, o fazemos pela necessidade de nos sustentarmos, e aos nossos. Não importa em que área trabalhamos, o fazemos pela grana – e, quem sabe, por alguma satisfação pessoal também.Exploração é regra nas relações que regem nossa sociedade, não exceção, os mais conscientes sabem muito bem. Somos contra, mas, até o momento, leis, regras e fiscalização foi a solução que amenizou o problema, para todos.

Feliz é aquele que trabalha no que gosta. Assim é com o profissional do sexo também. A prostituição é, sim, “um trabalho como outro qualquer”, porém com suas peculiaridades. Manter a “profissão” à sombra da legalidade, negando direitos, negando regulamentação, só contribui pra que se trabalhe em um ambiente de violência, exploração, SEGREGAÇÃO. Além do mais, já passou da hora de sermos vistas – nós, meretrizes – como cidadãs responsáveis por nossas escolhas e donas de nossas vidas.

Muitos movimentos nos tratam como seres incapazes de escolher nossos caminhos, vítimas de um trabalho que nos oprime, ignorantes sobre o mundo que nos cerca. O que verdadeiramente nos oprime é estar à margem, é o trabalho mal pago, é a invisibilidade forçada, esse vitimismo imposto, aliado a uma romântica compreensão de que sexo é algo pelo qual não se pode cobrar sem uma vaga sensação de erro, de pecado, de culpa.. Somos nós, meretrizes, também, donas e senhoras de nossos corpos, mesmo durante nosso período de trabalho. Percebam: alugar seu tempo não é equivalente a alugar ou vender seu corpo, como pensam tanto(as). Quem contrata os serviços de uma prostituta não tem direito ao abuso ou à violência. Há uma diferença sensível, porém importante, entre um conceito e outro.

“Profissionais do Sexo: Documento Referencial para Ações de Prevenção das DST e da Aids”, pioneira cartilha elaborada pelo Ministério da Saúde em 2002.

Alguns, com boa intenção talvez, mas desconhecendo a realidade, dizem que é uma atividade “indigna” e, portanto, não passível de direito. Dignidade é liberdade. Exercer seu ofício de modo digno e ter seus direitos de trabalhador respeitados, isso é libertar o profissional do sexo. Exigir que um profissional abandone seu trabalho não o liberta de nada. É, sim, interferir vergonhosa e autoritariamente na vida de pessoas adultas e com condições de decidir. Eu, como você.

Relações Públicas, Bauman, Blogs e Direitos Humanos

Por: Diego Galofero em Versátil RP

Recentemente apresentei na faculdade um artigo sobre a pós-modernidade, e lendo uma matéria da Revista Superinteressante, levantei uma reflexão sobre a prostituição, blogs e pós-modernidade. Quase todo estudo sobre pós-modernidade foi focado nas obras do

polonês Zygmunt Bauman. Nesse processo eu visitei muitos blogs de garotas de programa e consegui o contato de duas profissionais que farão comentários sobre o artigo. Sabe-se pouco sobre Monique Prada e Larissa Golf, só que são moradoras de Porto Alegre e são ativistas de direitos humanos. Leia um pouco do artigo adaptado para o Versátil. Você pode se perguntar o porquê um blog com o foco nas Relações Públicas aborda um assunto desses. Eu te explico: sempre leio e ouço que temos que ser profissionais multiculturais e com o papel de sempre colocar em pauta o debate sobre as diferenças, já que trabalhamos com públicos, e é sempre importante estar preparado para qualquer tipo de assunto.

Para ser prostituta, não é necessário trocar sexo por dinheiro, mas geralmente é assim que acontece, e a “profissão” encontrou uma solução para eliminar intermediários conhecidos como “cafetão”, contra violência e exposição. Monique Prada discorda e diz: “O uso das redes não necessariamente eliminou a figura do intermediário. Temos, sim, agências, fóruns, sites – que, de um modo ou outro, intermediam o contato entre as acompanhantes e os clientes. Por outro lado, reforço algo que já falei mil vezes: antes da internet, já havia acompanhantes que não saiam de casa para oferecer seus serviços: quem não se lembra dos classificados de jornais?” Para Larissa Golf a internet criou paralelamente (a realidade virtual) o cenário real e concreto. Colabora com o anonimato, o que facilita a maior demanda de meninas e consequentemente de agenciadores e etc. Porém o número das chamadas “modelos independentes” parece estar crescendo e tomando a maior parte no mercado.

Em determinado momento eu cito uma pesquisa da revista Superinteressante sobre o fato de elas nunca terem saídos à rua para procurar clientes e utilizar seus blogs como ferramenta de propaganda e cartão de vistas. Prada fala da humanização do marginalizado: “Eu e milhares de prostitutas jamais usamos as ruas para isso. No entanto, ainda há quem use. Sempre haverá, são nichos diferentes de um mesmo serviço. Os blogs interferem sim na prestação de serviços das garotas de programas, pois esta ferramenta humaniza o que é marginalizado. Humaniza, em termos, o contato entre cliente/garota. Digo, em termos, pois o preconceito, abuso e assédio moral ainda imperam.”.

Já Larissa fica em dúvida se humaniza mesmo: “Não sei se ‘humanizar’ seria a palavra ideal, talvez ‘amenizar’ sirva melhor. Eu nunca trabalhei em condições desumanas – apesar de isso existir – então me soa meio forte quando falamos de ‘acompanhante 2.0’. Apesar de concordar que o abuso impera, creio que tudo seja uma questão de se posicionar perante as situações. É uma pena que nem todas tenham consciência disso.” A própria Monique Prada é ativista dos direitos humanos e diz está na profissão por escolha, que prostituição depende de escolha sim. Conversar com essa gaúcha através das novas mídias demonstra que aquela visão antiga sobre as putas, mulheres objeto é apenas preconceito.

Para Monique ser prostituta não é um final para uma pessoa que não teve outra escolha na vida: “É escolha consciente pra mim, que sou adulta. Pode ser escolha induzida para adolescentes e jovens, dado o destaque e glamour que a mídia tem associado à nossa atividade.” Larissa concorda e ainda fala da indução depois do filme da Bruna Surfistinha: “Concordo com a Monique nessa questão da indução. Depois do filme da Bruna parece que foi pior. Essas meninas, porque não passam de meninas inconsequentes, agem por impulso. No meu caso comecei por questões financeiras, mas teria como não trabalhar com isso, no entanto não faço questão de sair. Muitas acabam se arrependendo.” Essas novas garotas de programas têm exposição menor à criminalidade, violência e primam pela qualidade do atendimento.

Prada diz que sempre foi blogueira, mas quando começou a fazer programa, há dois anos, não pensou duas vezes em divulgar pelo blog e fazer um perfil no Twitter: “O perfil no Twitter uso basicamente para ativismo digital. Necessário envolver e engajar cada vez mais profissionais, e mesmo mulheres não profissionais, na luta por nossos direitos enquanto mulheres, na luta contra a homofobia, contra a violência, exploração sexual e prostituição infantil. Importante incentivar cada vez mais as garotas a blogarem, participarem.” Golf acrescenta: “A facilidade de trabalhar anunciando hoje, fez a qualidade de o atendimento decair, e abriu portas para o abuso através de fóruns e redes espalhadas na web. No entanto também acho que devemos lutar em prol de um engajamento das meninas. Eu acredito que quem leva essa profissão tão a sério quanto qualquer outra é que irá se identificar.”.

 O intuito deste post é não levantar bandeira e nem de querer criar juízo de valor, e sim trazer uma reflexão de como as mídias digitais estão melhorando a sociedade, mas ao mesmo tempo não cria grandes revoluções por todas as partes. E essa é a tendência tecnológica: auxiliar, mas não revolucionar tudo o que conhecemos sobretudo as relações humanas.

Para saber mais, vejam a matéria da Superinteressante e o Manifesto de Monique Prada.

Robôs substituirão meretrizes

Cientistas da Universidade de Victoria, na Nova Zelândia, divulgaram uma previsão futurística para 2050. Eles afirmam que o famoso bairro da luz vermelha, situado na cidade de Amsterdã (Holanda) será dominado pelas prostitutas robóticas. E o maior benefício desta mudança será o quesito limpeza!
As pesquisas revelam que, para dar um efeito mais real, todos os robôs – seja na versão feminina ou masculina – serão feitos de fibras resistentes a possíveis bactérias liberadas por “fluídos” humanos.  Mas eis que surge uma dúvida: e o banho? Quem irá fazê-lo? Ou ainda, será possível enfiar o robô embaixo do chuveiro? As garotas e garotos serão a prova d’água?

Ian Yeoman é professor de administração com aptidões para o turismo e Michelle Mars é sexóloga. Ambos são os responsáveis pelo estudo “Robots, Men and Sex Tourism” (Robôs, homens e turismo sexual) que foca no futuro do bairro da luz vermelha de Amsterdã em 2050. Para a dupla, os atrativos deste novo modelo de prazer sexual, além da higiene, são a redução do tráfico mundial de mulheres para prostituição e a beleza e perfeição que esses robôs irão agregar.

Fonte: Olhar Digital

Contra as Drogas e o Bicho do Pau Grande

Uns dias atrás, me ligou um moço, bem educadinho … papo vai, papo vem, me diz ter sido recomendado por uma colega, que eu era uma mulher bonita, interessante, aquela coisa .. e que a colega me indicou como companhia perfeita pra ‘fumar um’ com ele, por que ‘eu curtia, e pá” .. bom, neste ponto, precisei interromper a incansável lista de elogios e dizer a ele que, certamente, estava falando com a pessoa errada. Menos por moralismo, mais por desejar que ele chamasse a garota certa. Se eu não minto sobre as minhas ‘aptidões sensuais’ pra conquistar cliente, por que mentiria que ‘fumo um’ (éca) ? Rapaz ficou bem sem jeito, e acabou não agendando – o que me leva a crer que ele, realmente, falava sério e procurava uma parceira pra algo mais que bom sexo e conversa agradável.

Não sei, nem me interessa saber, se a referida colega falou mesmo algo do gênero – ao mesmo tempo em que não ponho a mão no fogo por nenhuma de nós (sei, sim, que volta e meia rola uma fofoquinha no ‘meio’, como rola em TODOS os ‘meios’), também devo reconhecer que pode ter sido algum tipo de armação maquiavélica para semear a discórdia (já que a dita cuja é mesmo minha amiga e volta e meia andamos uma na casa, e na cama, uma da outra, e sei que isso pode gerar algum ciuminho, quem sabe ..)

Não é a primeira vez que rola esse tipo de assunto. Fugi de postar esse tempo todo, embora a mesma colega tenha me pedido uma posição, depois de ouvir dela que um ‘crientezinho’ que adoraria sair comigo mas desistiu pois ‘ouviu falar’ que uso drogas ( vá lá que fosse verdade e eu quisesse compartilhar “minhas drogas” com ele, né?) Bom .. segundo ela, o boato podia prejudicá-la, pois a pessoa chegou a insinuar que ”usávamos drogas juntas” (isso EU, que não divido nem chocolate rs).

Como, regra geral, estou ‘andando’ pra o que pensam ou deixam de pensar da minha nobre pessoa, deixei o assunto pra lá. Até que, depois do fatídico telefonema, chegou o momento em que o post se tornou inevitável, inadiável, imprescindível.

Entedia-me profundamente isso de explicar, justificar, me definir como ‘geração saúde’ e o ‘scambau’ … precisaria exercer com mais ênfase e cinismo algo que muito me custa, que é o dom de, hipocritamente, me fazer de santa. Eu posso, é claro. Talento eu tenho. Não o faço simplesmente por que não quero. É ‘comercialmente pouco interessante’ expor minha real opinião? Lamento.

Mas .. comecemos pelo óbvio: desconheço adulto que nunca tenha usado alguma droga. Reafirmo: desconheço! A não ser que sejamos inocentes ou ordinários o suficiente para ignorar o poder entorpecente daquela sagrada cervejinha no fim da tarde, necessariamente reconheceremos (ainda que, talvez, contra a vontade) esse fato.

Pulada esta fase (já que, por aqui, todos, penso eu, somos adultos o suficiente pra tocar no assunto sem meias palavras), vamos ao que interessa: as drogas ilícitas, o grande mal de nossa sociedade (muito embora já não possamos negar que o álcool causa mais danos que ‘a tar da macôôônha’). Não vou negar: sim, eu já fumei. E traguei. Foram 3 vezes, há algo mais, BEM MAIS, de 10 anos atrás (era adolescente, ainda). A primeira vez, foi para experimentar. Odiei. A segunda, para saber se gostava. Odiei. A terceira, para ter certeza de que odiava (milhões de moscas não poderiam estar enganadas). Novamente, odiei. Odeio qualquer coisa que me deixe ainda mais calma do que já sou. Qualquer coisa que altere gravemente a minha percepção. Mas .. isso sou eu, essa é a minha natureza… Entendo, sim,  que já passou da hora de uma discussão séria e transparente a esse respeito, e por isso muitos certamente me viram defendendo a Marcha da Liberdade. Entendo que os interesses por trás dessa proibição são bem maiores do que os ‘rígidos valores morais da família brasileira’.. E vejo, sinceramente (me xinguem rs) pouca diferença entre um baseado e uma cervejinha (coincidentemente, nenhum dos dois me agrada – fato)

Quanto a outras drogas.. no momento, restrinjo minha ‘área de interesse’ a alguns  vinhos franceses baratos, uns poucos chilenos e argentinos que me agradam (a recomendação vai pro Amalaya, que conheci há uns 2 meses e tem sido meu preferido) e o bom espumante, argentino ou nacional (sugiro Mumm, o óbvio Chandon, e Cave Geisse .. brut, please).

Agora… esse ‘comportamento exemplar’ que vejo exigirem das meretrizes .. e esse pacto silencioso que leva a maioria das colegas a ter, ou fingir, comportamento digno de mocinhas de colégio interno de normalistas, é algo que me intriga. É muita cobrança pra pouca satisfação .. e é muita tentativa de ‘rasteira’ pro meu gosto, isso de falar da vida das coleguinhas, meninas. Mais amor, menos rancor. Menos guerra, mais prazer. Menos falar, mais meter.

E o Bicho do Pau Grande, que tem a ver com isso?

Nada … mas, se É PRA SER CONTRA alguma coisa, se eu TENHO MESMO que ser contra alguma coisa … vou ser contra o Pau Grande. Incompatibilidade física, pura e simplesmente. Nada mais.

… e segue o Baile … com ou sem máscaras …

Monique Prada, novembro/2011
Siga-me no Twitter, @MoniquePrada

Silent Society

Por Monique Prada – 12/04/2010

Só não vê que não quer, o mar não está para peixe pequeno. Os bagrinhos (e as bagrinhas, hehehehe) irão sofrer muito nessa conjuntura que se apresenta.
O problema nunca é crise ou falta de dinheiro – embora, sim, a crise nos países centrais seja responsável por muito do que me anima a escrever agora, mas isso já é outra história – o problema não é a crise, mas mudanças e modificações nas “tendências”. E, como nunca, o melhor cego é aquele que se recusa a enxergar o óbvio: já mudou! O minimalismo silencioso e intimista grita que o serparaterparaserparater é o novo hype. But, don’t believe the hype… porque as coisas não são tão simples como parecem.

Sem teoria, somos todos espermatozóides estéreis – embora sempre haja quem faça e refaça os caminhos e não conheça o motivo do fracasso. Monique é, definitivamente, fruto de uma reflexão sobre o futuro e as “tendências” – isso está claro desde os primeiros posts desse blog, sobre o que esperam os amigos e patrocinadores.. como sobre se sentir bem e fazer bem feito em um momento onde o pior prospera e o melhor é relegado ou inatingível.
Tudo já foi visto e feito em termos visuais e, em grande parte, reciclado. As referências e meta-referências funcionaram após os anos 1980. 2010 marca um novo momento nessa história. Estamos cansados – mas só nos sobrou o vazio-concreto das infinitas imagens refletidas nos espelhos das telas das TVs, notes, Ipads e celulares…
Então, meu Deus dos écrans luminosos! Então.. o que explica o sucesso global extraordinário do curling nos Jogos Olímpicos de Inverno, senão o saco cheio das pessoas com o estado atual da sociedade do espetáculo? O curling, para quem não sabe, é o anti-espetáculo televisivo. É um jogo que existe faz séculos e seu sucesso sempre foi menos do que residual. Trata-se de jogar pedras em torno de um alvo no gelo. E, o mais bizarro: o lançador da pedra, escudado por um capitão, ajuda a comandar uma equipe com dois “vassourinhas” - que varrem o gelo com maior ou menor determinação, de modo a que a pedra deslize mais ou menos rápido e possa atingir com maior precisão ao alvo. Existe “esporte” mais anti-espetacular? É algo como o “campeonato de pedrinhas n’água”. Mas é calmo, relaxante, sem contato físico, quase silencioso. Apesar dos gritos dos jogadores, as pedras sibilam sensualmente no gelo, as vassourinhas uivam e gemem… A imaginação corre solta no bater das pedras. O curling, o anti-espetáculo, é sucesso em Wall Street (vários jargões do esporte que não me ocorrem agora foram incorporados à linguagem das estratégias financeiras após as Olímpiadas) e no mundo. Por que agora e não antes, essa é a pergunta correta. O que isso significa?
Outro exemplo dessa nova tendência é o sucesso das “silent parties”. Não fui, mas adorei a ideia. Na  Silent Party, os “festeiros” ficam com fones e três canais de músicas à sua disposição. Retirando os fones não se escuta nada, é possível até mesmo conversar… Me lembra um tanto a idéia do bar à l’eau, em voga desde os anos 1990 em Paris. O bar ideal da Monique tem água mineral de todas as procedências (e até alguma champagne, legítima também, rs), que contrasta com o espetáculo brega do aparecerparaser falsamente “esperto e descolado” .
É bem isso que busco: muita loucura, mas sem grandes chacoalhares; muita agitação, mas sem grande barulheira; e muita sensualidade, mas  sem a enorme vulgaridade “esperta” que nos assola. Não grito, não falo em demasia. A estética pornô não me atrai. Estou longe do funk e do pagode. Dançar coladinho, tô fora. Nada contra, apenas não me atrai. E os exemplos acima mostram que não sou a única, ao contrário, o meu sentimento é o hype… silent society; fluidez sensual. Cascatas, fontes e águas…
Que os tempos sóbrios que se avizinham abençoem o bom gosto, a diversão e a verdadeira loucura.

- Sex for Sale, from Pavement to Penthouse -

Economias Invisíveis

Artigo de Vinícius Grünberg, para The Yale Globalist, com minha colaboração.

In Recife, the state capital of Pernambuco, in northeastern Brazil, the expansive Atlantic is preceded by an oceanfront boulevard, which on this night was empty save for prostitutes. They stood idly on street corners, beckoning to cabs like the one that drove 25-year-old Drika (name changed upon request) to her client’s apartment building. She is not usually comfortable with the idea of house calls — motels provide more safety against violent clients — but he is reliable. “I’ve known him for a while, and he doesn’t seem like he’ll turn violent. A client’s history is what we can rely on to know him,” she explained, sighing with resignation. Nonetheless, she told José, her cab driver, to park around the corner and wait for her “all clear” text message before he leaves. After being admitted by security, she took the service elevator — according to her, “it is less conspicuous than the main elevator as only maintenance personnel and house maids use it.” This is the first time Drika has come to this luxurious apartment building, but she has known more than one of its affluent inhabitants in bed. All of them, she pointed out, pay her because they are “bored of their lives, lonely, and married. Worst of all is that some don’t even try very hard to hide it from their wives.” Why should they? In the midst of Brazilian society, the truth is that prostitution is an open secret, opposed by few, enjoyed by some, and endured by all.

From Slavery to Service

In Brazil, prostitution — and, more broadly, commoditized sex — is not news. Sex and power have been intertwined since before the country’s independence. During the colonial period, slave girls were forced to have sex with their owners. José Carlos Reinoso, an assistant professor at Centro Universitário Augusto Motta in Rio de Janeiro, related prostitution to the Brazilian slave tradition: “Some slave owners would even open brothels where their female slaves could work as prostitutes,” he said. “Many slave women found that preferable to plantation or housekeeping work mainly because it offered the opportunity to win some tips with which they could buy their freedom.” By the time slavery was abolished in Brazil in 1888, Reinoso explained, former slave women, homeless and destitute, moved to urban centers and tried to survive as prostitutes in already-established brothels under the protection of “enterprising former slave owners,” who thrived in a context of state negligence and corruption.

In Brazil today, prostitution derives legitimacy from the bulwark of a functioning society: the Constitution. Unlike in the United States, where it is illegal both to sell and procure sexual services, prostitution in Brazil is legal according to paragraph XIII of the First Article, which provides for each individual’s freedom to exercise any job, employment, or activity unless otherwise restricted by law. However, several articles in the penal code stipulate that while a woman may profit from selling her own body, nobody else may: The commercial exploitation of prostitution “through prostitution houses or any other means” is an illicit act that carries criminal charges. Yet because the state lacks both the political will and the financial resources to enforce the law, brothels pervade nearly every Brazilian city. The police and state authorities are keen on denying the public access to official data on prostitution. A simple interview with the a member of the public safety police (the law enforcement body tasked with stopping sexual exploitation) requires formal authorization from the Governor’s cabinet. Such interviews are seldom granted. From the dingy suburban brothels of the country’s interior to the downtown luxury prostitution houses of major cities, the sex trade obeys the demands of the market rather than those of the law.

Men typically become a part of that market at a young age. Traditionally, a teenager would lose his virginity to a prostitute handpicked by his father. André, a 54-year-old driver from the industrial town of Caruaru, described his first sexual experience. “My father took me to his favorite brothel, Dona Odete’s. ‘My boy’s as sturdy as his father,’ he would say to the girls, and after a couple of visits, I began going there on my own, or with friends,” André said. This scenario, now heavily frowned upon as an antiquated, politically incorrect parenting practice, has changed only superficially. Nowadays, the paternal figure has been replaced by that of the peer group, as 15-year-old boys get together to go to brothels or to share the costs of hiring an escort girl and taking her to a motel. Paulo, now 21 years old, reminisces about his fifteenth birthday, when “the guys came by the house and almost forcibly took me to a brothel. In the end it was great: we paid a girl to strip just for our group, and then the five of us lined up to have sex with her, one at a time.”

Now married and a father himself, André has drastically reduced his visits to brothels, out of a “desire not to tear this family apart” and perhaps due to financial constraints as well, since raising a child and maintaining a house is expensive. Nonetheless, he confessed, “Once in a while, I pay a visit. But I would never have a mistress!”

Many wives treat their husbands’ escapades leniently. As one woman, who spoke on the condition of anonymity, admitted, “I prefer my husband to be fooling around with prostitutes than to be having passionate affairs that will put my marriage in danger.” When young girls watch their male friends head off to the brothels, they laugh it off. High school junior Vanessa Moraes said she finds it “very amusing” to watch the boys hire an entire van to take them to the strip club. “They’ll grow out of it, I guess. It’s just a boy thing.”

The Industry

Because prostitution is legal in Brazil, the market has both flourished and diversified. Costs for sexual services vary depending on the city, the establishment, and what kind of services a woman performs. A thorough search through online profiles, newspaper ads, brothel “photo-menus,” and street corners reveals the qualities that determine a prostitute’s place on the scale of luxury; the cost of services differs based on a woman’s knowledge of foreign languages, her ability to engage in conversation, her dress, and her work environment. Women who work independently on streets charge around $25 for a programa completo, which includes oral, vaginal, and anal sex. The average brothel prostitute and independent escort charges between

$100 and $200 for a two-hour programa, complete or not, depending on the professional. Finally, at the top of the scale, it costs between $500 and $1,000 (possibly more) for a similar service. In addition to this payment given directly to the prostitute, clients are also responsible for the brothel fee — between $20 and $250, depending on the establishment — required for a client to take the girl to a motel, as well as the cost of a motel room.

Motels are an integral part of Brazilian prostitution, used to host sexual exchanges by couples who have nowhere else to go. Unsurprisingly, prostitution establishments located outside major cities are often close to at least one motel. These establishments are as common to the urban landscape as grocery stores, located in the best parts of town alongside other “more respectable” enterprises such as shopping malls and commercial galleries. Their presence is particularly strengthened by the force and buoyancy of their advertising strategies. Recife’s Lemon Motels are famous in Recife for their billboards featuring sexually suggestive fruits, such as breast-shaped lemons and bananas meant to recall penises that point towards the nearest Lemon establishment. Most programas take place in motels, which are relatively cheap; the best ones have special “erotic” suites that cost $40 for an overnight stay. They are relatively safe, for they are located in the middle of town and, according to both Drika and Monique

Prada, a prostitute and businesswoman from Porto Alegre, have “a tight security system to prevent clients from crossing the limit of the client-escort relationship.” Because many of the men buying sex are married, motels provide at least nominal secrecy. Finally, motels are relatively comfortable, with all of the amenities of a typical American hotel plus erotic additions such as vibrators, pornographic TV channels, hot tubs, and jacuzzis. Drika explained why motels are preferable for prostitutes as well as clients: “the rooms make it easier for me to please him, in the jacuzzi, or watching porn.”

Brazil’s social hierarchy is evident in the types of men that frequent different brothels. In the economic and political hubs of the country, especially Rio de Janeiro, São Paulo, and Brasília, the houses become meeting place for important, oftentimes famous political figures accustomed to luxury and exclusivity. Visiting a luxury brothel in Goiânia, next-door to Brasília, dentist Onildo Campus noted that “everything was extremely expensive: one liter of liqueur Amarula cost $300, and the house fee to take any girl out on a programa was $250 plus the girl’s own fee. A few minutes after I got in, a number of senators, representatives, and elite cattle businessmen arrived. I asked myself, Onildo, what are you doing here?” Campus was attending a professional conference in Goiânia and was openly offered escort services as part of a “conference package” that also included sightseeing and regional meals.

The average Brazilian man may not be able to afford such expensive services, but this does not preclude him from patronizing brothels. Tati drinks, a dingy brothel where a 22-year-old woman named Deysianne works, is supposed to be Caruaru’s finest, according to all of the town’s residents. With a $3 entry fee (which includes a beer), the place is packed by industrial workers, many of whom relax and drink, but few of whom actually purchase services, preferring instead to save their money and take in the atmosphere. Given the scant number of prostitution establishments in the town, many groomed gentlemen from Caruara also attend, though they seldom stay in the brothel, preferring to take the girls to Alphaville, Caruaru’s best motel, located just around the corner. The obvious differences among clientele, intensified by the effects of alcohol, sometimes lead to violent episodes. The brothel has recently seen two major shootings. In one instance, a customer talked Madam Tati into closing the brothel for him and his friends, and was subsequently shot three times on the chest by a ranch worker irritated at being asked to leave.

Unexpected Sex in Unexpected Places

The prevalence of so many forms of prostitution has made commercial sex so commonplace that it has found its way into the country’s workplaces. Carlos Fontes (name altered upon request), a wealthy, sharp-looking, 40-year-old businessman, admitted that he frequently visits brothels while traveling for business. “Whenever there are business trips involving my associates and I, we often procure prostitutes through independent ads or establishments, for at least one of the evenings. It is preferable if a big company invites you to the conference, for they more often than not treat you to escort girls and fine restaurants.” Men of lesser means, such as a store clerk from Recife named Gilson, also manage to mix sex with work. His clothing store is located underneath a massage clinic that doubles as a brothel, which he said, “makes things easy. I can go there every couple of weeks for lunch break when I have some money left.” The prices are distinctively different – Carlos pays on average $200 for a 2-hour programa, while Gilson pays $30 for a half-hour “oral relaxation” (read, oral sex) session.

Among teen boys and grown men alike, prostitution is a part of Brazilian identity. Because it is legal to sell one’s own body, prostitution is not as stigmatized in Brazil as it is elsewhere, despite the fact that much prostitution takes place under the supervision of brothel owners, which is technically illegal. Police, who make little effort to stop illegal prostitution, refuse to speak out about the issue. And so, in dimly lit motel rooms nationwide, a male-centered economy thrives, accepted as a fact of life even by the few who choose not to buy into it.

Originalmente publicado em The Yale Globalist (clique e leia o original)

As prostitutas na história – de Deusas a Escória da Humanidade

POR PATRÍCIA PEREIRA em UOL-Leituras da História

Que a prostituição é popularmente conhecida como a profissão “mais antiga do mundo”, todos sabem. E, desde que o mundo é dito civilizado, sempre houve prostitutas pobres e prostitutas de elite. O lado desconhecido dessa história é que a imagem a respeito delas nem sempre foi a que temos atualmente. As meretrizes já foram admiradas pela inteligência e cultura, e também já foram associadas a deusas – manter relações sexuais com elas era necessário para conseguir poder e respeito. As “mulheres da vida” sempre tiveram um lugar na História, mas, ao longo dos anos, seu status passou de respeitável à condenável.

Maria Regina Cândido, professora de graduação e de pós-graduação em História, e coordenadora do Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), explica que a conotação de ser ou não bem-vista pela sociedade é um olhar de nosso tempo sobre as prostitutas. “Na antiguidade, elas tinham seu lugar social bem definido. Era uma sociedade que determinava a posição de cada um, que precisava cumprir bem o seu papel em seu espaço e não migrar de função”, diz Maria Regina.
Lá atrás, no período da pré-história, a mulher era associada à Grande Deusa, criadora da força da vida, e estava no centro das atividades sociais, explica Nickie Roberts, no livro As Prostitutas na História. Com tal poder, ela controlava sua sexualidade. Nessas sociedades pré-históricas, cultura, religião e sexualidade estavam interligadas, tendo como fonte a Grande Deusa, conhecida inicialmente como Inanna e mais tarde como Ishtar. Os homens, ignorantes de seu papel na procriação, não eram obsessivos pela paternidade. Foi essa preocupação com a prole que, mais tarde, levou ao surgimento das sociedades patriarcais, com a submissão da mulher.

Por volta de 3.000 a.C., tribos nômades passaram a criar gado e tornaram-se conscientes do papel masculino na reprodução. As sociedades matriarcais da deusa começaram a ser subjugadas. As primeiras civilizações da era histórica desenvolveram-se na Mesopotâmia e no Egito, e nasceram desse levante. Novas formas de casamento foram introduzidas, especificamente destinadas a controlar a sexualidade das mulheres, afirma a escritora. “Foi nesse momento da história humana, em torno do segundo milênio a.C.,
que a instituição da prostituição sagrada tornou-se visível e foi registrada pela primeira vez na escrita”, explica Nickie.

AS PRIMEIRAS PROSTITUTAS DA HISTÓRIA
As grandes cidades da Mesopotâmia e do Egito continuaram centralizadas nos templos da Grande Deusa. As sacerdotisas dos templos, que participavam de rituais sexuais religiosos, ao mesmo tempo mulheres sagradas e meretrizes, foram as primeiras prostitutas da História, conta Nickie Roberts. O status dessas mulheres era elevado. Os reis precisavam buscar a benção da deusa, por meio do sexo ritual com as sacerdotisas, para legitimar seu poder. “Nessa época, as prostitutas do mais alto escalão do templo eram, por direito nato, agentes poderosas e prestigiadas; não eram as meras vítimas oprimidas dos homens, tão protegidas pelas feministas modernas”, escreve Nickie Roberts.

A Suméria criou a segregação feminina ao colocar em lados opostos a esposa obediente e a prostituta má.
Julio Gralha, professor do NEA/UERJ, lembra que a visão sobre as prostitutas da época é pouco documentada de forma escrita, mas pode ser inferida pelas imagens das iconografias. “Pela análise da iconografia, a prostituta existia no Egito e atuava de forma remunerada.
Há contos iconográficos, cômicos, em que a prostituta é vista como poderosa, o homem não agüenta. Como aparecem o colar e outros símbolos ligados à deusa, elas são vistas como protegidas. A prostituição não era algo repulsivo ou condenado pela religião”, diz Gralha.

UM NEGÓCIO ORGANIZADO NA GRÉCIA
Com o passar do tempo, a independência sexual e econômica da prostituta tornou-se uma ameaça à autoridade patriarcal. Por isso, a religião da deusa foi combatida pelos sacerdotes hebreus e, aos poucos, suprimida. Os rituais sexuais viraram pecados graves e as sacerdotisas, pecadoras.

“As principais religiões patriarcais que se seguiram – o cristianismo e o islamismo – reconheceram o impacto devastador do estigma da prostituta na divisão e regulamentação das mulheres”, explica Nickie Roberts.
A Grécia antiga foi uma típica sociedade patriarcal. As mulheres não podiam participar da vida política e social. No entanto, como aconteceu a todas as sociedades antigas, os primeiros habitantes da Grécia foram povos adoradores da deusa, afirma Nickie. Os deuses masculinos só vieram mais tarde, por volta de 2.000 a.C., com os invasores indo-europeus. As duas culturas fundiram-se e produziram o híbrido que chegou até nós. Basta lembrar que Zeus, divindade suprema indo-européia, casou-se com Hera, poderosa deusa sobrevivente do culto anterior.

A negação total do poder da mulher na sociedade grega é decorrente do governo de uma série de ditadores homens. Sólon, que governou Atenas na virada do século VI a. C., foi o principal deles, tendo institucionalizado os papéis das mulheres na sociedade grega. Passaram a existir as “boas mulheres”, submissas – e as outras. Foi também Sólon quem, percebendo os lucros obtidos pelas prostitutas – tanto as comerciais quanto as sagradas -, organizou o negócio, criando bordéis oficiais, administrados pelo Estado. Neles, havia grande exploração das mulheres, que eram praticamente escravas. Junto com os bordéis oficiais, muitas meretrizes independentes exerciam o seu comércio, apesar da legislação de Sólon. “Pela primeira vez na História, as mulheres estavam sendo cafetinadas – oficialmente. (…) Assim, de mãos dadas, nasceram a cafetinagem estatal e privada”, afirma Nickie.

Maria Regina Cândido, historiadora da UERJ, lembra que foi a pressão sobre a terra, com o grande aumento da população grega, que levou Sólon a criar os primeiros bordéis. Isso porque ele trouxe para a região estrangeiros ceramistas, com o intuito de ensinar à população excedente uma nova atividade, já que a agricultura não absorvia mais a todos.
“Para que os estrangeiros não molestassem as esposas e filhas de cidadãos gregos, ele criou um espaço de prostituição oficial na periferia da cidade, os bordéis”, explica a coordenadora do NEA.


Segundo Maria Regina, as prostitutas ficavam em frente ao cemitério, na região do cerâmico, onde estavam instaladas as oficinas dos ceramistas, e também na região do Porto do Pireu, onde eram chamadas de pornes, daí vem a palavra pornografia.

As prostitutas dos bordéis eram estrangeiras, trazidas para a Grécia exclusivamente para cumprir esse papel. Mas muitas mulheres gregas, depois de casamentos desfeitos por suspeita de traição ou outros desvios de comportamento, não viam outro caminho a não ser prostituir-se. Essas, estigmatizadas, juntavam-se às estrangeiras nos bordéis oficiais.

SÍMBOLO ÀS AVESSAS
Maria Madalena, famosa prostituta arrependida da Galiléia, representa que, para ser salva, a mulher precisa abandonar a profissão. Conhecida como a ex-prostituta da Galiléia, Maria Madalena foi uma das mais fiéis seguidoras de Jesus Cristo. De acordo com a Bíblia, ela estava presente em sua crucificação e em seu funeral. Foi ela quem encontrou vazio o túmulo de Jesus, ouviu de um anjo que ele havia ressuscitado e foi dar a notícia aos apóstolos.
Prostituta com papel de destaque na história de Cristo – foi, inclusive, canonizada pela igreja católica -, Maria Madalena poderia ter se tornado um símbolo na luta pela aceitação da atividade. Mas o que ocorreu foi o contrário: como personificou o estereótipo de “prostituta arrependida”, acabou por disseminar uma imagem negativa sobre a prostituição, ao reforçar a idéia de que é preciso abandonar a atividade para redimir-se dos pecados e ser perdoada por Deus.

Durante a Idade Média, as prostitutas atuantes eram excomungadas da igreja católica. Mas as que se arrependiam eram perdoadas e aceitas pela sociedade. Houve até um movimento de conversão, em que a igreja estimulou fiéis a “recuperar” prostitutas e casar-se com elas. Também surgiram comunidades monásticas de ex-prostitutas convertidas, que receberam o nome de “Lares de Madalena”. Elas proliferaram pela Europa, tendo sido financiadas, em sua maioria, pelo clero. Além de Maria Madalena, a igreja enalteceu diversas outras prostitutas que salvaram suas almas pelo arrependimento, como Santa Pelágia, Santa Maria Egipcíaca, Santa Afra e outras.

O curioso é que nenhuma passagem na Bíblia afirma que Maria Madalena foi prostituta. Os textos sagrados a mencionam como pecadora, de quem Jesus expulsou sete demônios, mas não especificam qual seria seu passado. Provavelmente, o que a levou a ser vista como prostituta foi a identificação com um relato de Lucas (7:36-50) sobre uma pecadora anônima, descrita de forma a sugerir ser uma prostituta, que em certa passagem unge os pés de Cristo. O relato de Lucas, a respeito de tal mulher arrependida, antecede a citação nominal de Maria Madalena. No Ocidente cristão, a versão de que Maria Madalena seria essa mulher foi a mais difundida. No Oriente, a mulher anônima e Maria Madalena são vistas como pessoas diferentes.

As prostitutas do templo de Afrodite deixaram de ser vistas como sacerdotisas e viraram escravas. Muitas prostitutas eram cultas e instruídas, e cumpriam o papel de entreter os líderes daquela sociedade. Cobravam alto preço por sua companhia e podiam ou não ceder aos desejos sexuais do cliente. São as hetairae, amantes e musas dos maiores poetas, artistas e estadistas gregos, explica Maria Regina. “As hetairae conduziam seus negócios abertamente em Atenas, trabalhando independentemente tanto dos bordéis do Estado quanto dos templos”, diz Nickie.
A prostituição sagrada também sobreviveu, embora timidamente, durante o período da Grécia clássica. Havia templos em toda a Grécia, especialmente em Corinto – dedicado à deusa Afrodite. As prostitutas do templo não mais eram vistas como sacerdotisas, eram tecnicamente escravas. Mas, por serem consideradas criadas da deusa, mantinham a aura de sacralidade e eram homenageadas pelos clientes. “Demóstenes pagava caro por essas prostitutas. Ele ia de Atenas até Corinto só para ter relações sexuais com elas”, diz
Maria Regina.

LIVRES NO IMPÉRIO ROMANO
Roma foi diferente da Grécia. Até o início da República, a prostituição não era tão disseminada no território romano. “Roma ainda era muito provinciana, fechada”, explica Ronald Wilson Marques Rosa, historiador e pesquisador do NEA/UERJ. A prostituição apenas se difundiu com a expansão militar do império romano e a conquista de escravos.
Antes desta expansão, há indícios de que entre os primeiros romanos, que eram povos agrícolas, existia a antiga religião da deusa, diz Nickie Roberts. Ela também afirma que, em tempos posteriores, a prostituição religiosa estava ligada à adoração da deusa Vênus, que era considerada protetora das prostitutas.

Após a expansão militar e territorial, “os escravos eram os prostitutos, tanto homens quanto mulheres. E não havia estigmatização, não era algo mal-visto. Era normal o uso comercial do escravo para a prostituição. E, muitas vezes, eles usavam esse dinheiro para conseguir a liberdade”, diz Ronald Rosa.

De acordo com Nickie, Roma foi uma sociedade sexualmente muito permissiva. ”Eles escarneciam de qualquer noção de convenção moral ou sexual e desviavam-se de toda norma que houvesse sido inventada até então”, afirma. A grande expansão urbana favoreceu o crescimento da prostituição. A vida era barata, e o sexo, mais barato ainda, diz a autora. Prostituição, adultério e incesto permearam a vida de muitos imperadores romanos. “Falando de modo geral, a prostituição na antiga Roma era uma profissão natural, aceita, sem nenhuma vergonha associada a essas mulheres trabalhadoras”, comenta Nickie.
A vida permissiva levava mulheres a rejeitar o casamento, a ponto de o imperador Augusto estabelecer multas para as moças solteiras da aristocracia em idade casadoira. Muitas se registraram como prostitutas para escapar da obrigação. O sucessor de Augusto, Tibério, proibiu as mulheres da classe dominante de trabalhar como prostitutas.

Diferente da Grécia, os romanos não possuíam e nem operavam bordéis estatais, mas foram os primeiros a criar um sistema de registro estatal das prostitutas de classe baixa. Isso resultou na divisão das prostitutas em duas classes, explica Nickie: as meretrices, registradas, e as prostibulae (fonte da palavra prostituta), não registradas.
A maior parte não se registrava, preferia correr o risco de ser pega pela fiscalização, que era escassa.

CONDENADAS NA IDADE MÉDIA
Com o declínio do Império Romano, começou a Idade Média. Os invasores, guerreiros bárbaros, organizam a vida não mais em grandes cidades e sim em aldeias agrícolas, que não favoreciam a prostituição como a vida urbana. “As artes civilizadas do amor, do prazer e do conhecimento – o erótico e os demais – desapareceram durante a Idade das Trevas. (…) a antiga tradição de uma sensualidade feminina orgulhosa e exaltadora desapareceu para sempre”, afirma Nickie Roberts. A igreja cristã perpetua-se e reprime a sexualidade feminina, ao censurar a prostituição.


Apesar de condenada, a prostituição foi tolerada pela igreja, que a considerou “uma espécie de dreno, existindo para eliminar o efluente sexual que impedia os homens de elevar-se ao patamar do seu Deus”, explica Nickie. A igreja condenava todo relacionamento sexual, mas aceitava a existência da prostituição como um mal necessário. De acordo com Jacques Rossiaud, autor de A Prostituição na Idade Média, “pode-se afirmar, sem receio de erro, que não existia cidade de certa importância sem bordel”.

Havia bordéis públicos, pequenos bordéis privados e também casas de tolerância - os banhos públicos. Além disso, continuavam a existir as prostitutas que trabalhavam nas ruas. Em tese, o acesso aos prostíbulos públicos era proibido para homens casados e padres, mas eles encontravam meios de burlar a legislação. Rossiaud escreve que as prostitutas não eram marginais na cidade, mas desempenhavam uma função.
Nem eram objeto de repulsão social, podendo, inclusive, ser aceitas na sociedade e casar-se depois que deixassem a vida de prostituta.

A liberdade sexual só era tolerada para os homens. As mulheres casadas e suas filhas, de boa família, deviam temer a desonra. Mas, de acordo com Rossiaud, essa liberdade masculina não sobreviveu à “crise do Renascimento”. Houve uma progressiva rejeição da prostituição, que revelava nas comunidades urbanas a precariedade da condição feminina. “Lentamente, a mulher conquistou uma parte do espaço cívico, adquiriu uma identidade própria, tornou-se menos vulnerável”, explica Rossiaud. E houve uma revalorização do casal.
Prostituição e violência aparecem pela primeira vez associadas, devido a brigas, disputas e assassinatos nos locais públicos. Autoridades municipais, apoiadas pela Igreja, passaram a coibir a prostituição que, a partir de então, “aparecia como um flagelo social gerador de problemas e de punições divinas”, afirma Rossiaud. Um após outro, os bordéis públicos foram desaparecendo. “A prostituição não desapareceu com eles, mas tornou-se mais cara, mais perigosa, urdida de relações vergonhosas”, diz Rossiaud. Para o autor, foi o “duplo espelho deformante do absolutismo monárquico e da Contra-Reforma” que fizeram parecer “decadência escandalosa o que era apenas uma dimensão fundamental da sociedade medieval.”

UMA PATOLOGIA PARA A MODERNIDADE
Na modernidade, segundo Margareth Rago, professora titular do departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de “Os Prazeres da Noite”, a prostituição ganhou feições diferenciadas. Isso porque as mulheres conquistam maior visibilidade e atuação na sociedade. Surgiram novas formas de sociabilidade e de relações de gênero, com a criação de fábricas, escolas e locais de lazer e consumo. “Foram outros modos de vida, nos quais a mulher vai ter maior participação”, diz Margareth. Apesar da modernização dos costumes, a sociedade ainda é conservadora em relação às prostitutas.

Nesse contexto, nasceu o feminismo e a mulher reivindicou o direito de trabalhar e de estudar. O discurso sobre a prostituição ficou forte nesse período e virou debate médico e jurista. “Há um uso, não consciente, da prostituição para dizer que mulher direita não fuma, não sai de casa sozinha, não assobia na rua, não goza. O médico vai dizer que a mulher não tem muito prazer sexual, ela tem desejo de ser mãe. Já o homem tem e, por isso, precisa da prostituta” , afirma Margareth. De acordo com Margareth, é nessa época que as prostitutas passam a ser condenadas como anormais, patológicas, sem-vergonhas; uma sub-raça incapaz de cidadania. E a justificativa vai vir de teorias médico-científicas. “O que acontece é que a medicina do século XVIII usa os argumentos misógenos de Santo Agostinho e de São Paulo, e fundamenta cientificamente o preconceito contra a prostituta”, explica Margareth. “Diz que a prostituta é um esgoto seminal, uma mulher que não evoluiu suficientemente. São pessoas que têm o cérebro um pouco diferente, o quadril mais largo, os dedos mais curtos. Criam toda uma tipologia” , diz Margareth.

Para a autora de “Os Prazeres da Noite”, podemos diferenciar a imagem que se construiu da prostituta na modernidade para a visão que temos dela hoje em dia: ”Nos últimos 40 anos, mudou muito. O sexo está deixando de ser patológico, de estigmatizar o que pode e o que não pode. Não sei se acontecem mais coisas na cama de casados ou de uma prostituta. ”
“A revolução sexual transformou os costumes. Mas a sociedade ainda é conservadora e há forte preconceito contra essas mulheres”, diz Margareth.

REFERÊNCIAS

ROSSIAUD, Jacques. A Prostituição na Idade Média. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. 224 pág.

RAGO, Margareth. Os Prazeres da Noite: prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1890-1930). São Paulo: Paz e Terra, 2008. 360 pág.

Contact Us